sexta-feira, 27 de outubro de 2023

dizer não pra você

dizer não é como construir uma casa

dizer sim tem mais a ver com dança

comprei os tijolos, o cimento, comprei as ferramentas

eu mesma cavando as fundações

meu corpo está se balançando - balançar o corpo é dançar?

sapatas, paredes, uma laje e buracos que serão portas e janelas

você e a sua dança hipnotizante

preciso olhar para a planta da casa, ainda falta muito

a música cada vez mais alta

repetir para mim mesma os alicerces

crescer os detalhes da construção

brincar de soprar a porta depois de pronta

cozinhar as lembranças no fogão a lenha, comer o prato cheio e chorar


não, dizer não pra você é mais como construir um castelo sozinha.



segunda-feira, 29 de agosto de 2022

lama

hoje chove

o dia inteiro

o gosto de fim 

não é amargo nem doce


é terroso


o quanto uma pessoa pode se deixar enganar?


lá fui eu de novo

até os ratinhos aprendem a não voltar quando levam choque


quantas vezes eu preciso doer suas verdades?


todo meu corpo endurecido

assombrações por todos os lados 

o coração ainda mole

diante desse amor soterrado


quanto de lama é preciso para encobrir os anos mais felizes das nossas vidas?


a sorte me sopra devagar  

como quem esfria uma sopa pra dar de comer a quem se ama.




terça-feira, 31 de maio de 2022

vai escoar

trabalhei em novas lembranças

e agora elas me engolem ainda viva

a sensação de impotência 

tentar tocar em uma nuvem na esperança de ser feito algodão

eu que fui tanto até você, mas nada pode te alcançar

eu não posso te alcançar

vou embora ignorando a sua presença

você não sabe o que é amor

e eu que sei tanto

e eu que quis tanto o seu

amor

preferir estar sozinha do que comigo é uma enchente no meu peito

a água vai escoar.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

eu não paro de pensar no incrível

não consigo fazer nada 
além de pensar em tudo

descobri:
dedos que advinham o peso certo pra me fazer chover
gestos-gentileza que aquecem meu corpo inteiro
textura boa de tocar

eu que não toco, faria música em você

palavras certeiras, bobeiras, presença

você disse que te deixo nervosa
quero ser terremoto outra vez.

domingo, 10 de abril de 2022

amanhã é segunda

Sinto mais saudades nos domingos 

em que não danço

ou que não durmo

em que me desocupo

o contrário da leveza

a ausência pesa mais que um corpo

e deita sobre mim

eu respiro, eu me viro, eu dou meu jeito

amanhã é segunda, eu vou me distrair.


segunda-feira, 4 de abril de 2022

 


eu vou tirar do meu corpo todas as lembranças

e fazer uma grande fogueira que chamarei de adeus

para assim poder aproveitar plenamente o agora

sem resquícios de você 

em outras peles que me enrosco e não são a sua

sem resquícios de você 

em outras línguas que danço e não é a sua coreografia

sem resquícios de você 

em outras águas que não as do seu leito.


aos poucos

não vai sobrar nada de você 

no meu amar.

segunda-feira, 28 de março de 2022

Não ficar já é partida

Eu revisito você, ainda.

Eu preciso ouvir você dizer que acabou.

Novamente.

Ouvir repetidamente você dizer que acabou.

Até que acabe.

Eu preciso das palavras saindo da sua boca.

Eu preciso da sua boca

me dizendo adeus.

Até que o adeus chegue de vez e me faça um cafuné.

Não o seu. 

Nunca mais 

o seu cafuné.

Não basta saber que você ama outra,

não basta entender a partir das suas entrelinhas,

não basta não ter você aqui.

Eu preciso de toda essa voz que você me nega.

Eu preciso colocar uma escuta no teu coração.

Eu preciso que suas mãos peguem delicadamente o meu amor,

e que diante dele, suas lágrimas caiam, num banho de ternura

e você beije demoradamente cada parte

e se despeça com a certeza de ida.

Eu preciso da certeza de ida, eu vou buscar.


Qual é o meu lugar na sua vida?
Nem você sabe ou finge não saber.
Qual é o tamanho dessa saudade?
Tão curta que logo passa.

Eu não sou mais alguém para quem você faz impossíveis, 
logo eu, viciada em ir atrás do meu desejo
logo eu, tranquei a porta do meu quarto e engoli a chave
pra me proteger do risco de ir até você.


quarta-feira, 16 de março de 2022

Aqui e agora

Aqui, nesse lugar repleto de ontem, eu me permito chorar esse adeus.

As palavras permanecem, apesar de tudo. Elas, que nunca me abandonam, me fazem lembrar de tudo que se foi e era tão bonito. De tudo que já foi eterno um dia. De tudo que parecia tão especial e se acabou ordinariamente. 

Esse olhar que era tão meu. Esse carinho que era tão da minha pele. Essas declarações surpresas que invadiam os meus dias, tão minhas. Esse fazer de tudo pra me ver. Esse chegar na minha casa de madrugada. Esse estar na minha vida inteiramente. Essas piadas que eram tão pra mim. 

E agora é tudo dela.

Por aqui, ainda leio suas palavras doces vindas da eternidade de tantos anos atrás.

Vai passar. Mas as palavras permanecerão. Eu tatuo a minha história no tempo, eu escrevo.



sexta-feira, 29 de abril de 2016

Espinhos

Em que canto cabe esse meu implorar patético por mais amor?
Já não cabe mais na nossa casa que eu construí sem trancas nas portas.
Já não cabe mais no meu baú de palavras não ditas.
Cabe tampouco nas minhas insônias.
Aonde posso largar esse meu desamparo ridículo?
Não encaixa na nossa manta coberta de pecados inconfessáveis.
Não fica bem quando dita de longe nem quando dita de perto.
Não combina com as suas asas tão finas.
Onde eu posso enterrar essa parte torta do meu amar?
Parece não ter jeito de ficar no nosso quintal.
Também não tem espaço na harmonia da nossa partitura.
Nem mesmo fica dentro de mim.
E, por fim, em que pedacinho de nós cabe a minha feroz insegurança?
Nas minhas palpitações.
No meu medo bobo.
Na minha unha não feita.
No meu arrependimento.
Nas minhas poesias.
No meu pedido de desculpas.
Na minha ânsia de saber tudo.
No meu delírio.
Em mim.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Intimidade

Invade 
e corrompe meus tolos pensamentos,
te observo 
você está em frente a geladeira, 

seu cabelo está deliberadamente jogado sobre o ombro 
e descansando sobre seu peito direito, 

você pega a garrafa d'água 
e nós nunca precisamos de copo,

você mata a sede no gargalo

e devolve a garrafa à geladeira.
Me olha de longe,

nua, 

linda a sorrir 

e vem em minha direção. 

Eu, 

sentada no seu sofá preto, 

fico imensamente pequena 
diante da grandeza 
que tem essa nossa paixão.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Primavera

Devagarinho seu olhar percorre meu corpo em chamas
e todas as delícias que me diz ao pé do ouvido são feito mágica que me enfeitiça.
Cá estou, louca em arrepios. E tudo torna-se abstrato. Nada mais está.
Enlaço teu corpo eternamente entre meus braços e pernas, entre a manta e o colchão, entre o teto e o chão do quarto-sala. 
Ali, onde nossas roupas suadas descansam, descansa também todo o amor do mundo.
E aqui bem perto do fim do traçado do seu sorriso é o paraíso ou coisa parecida.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Carnaval e seu fim

Esqueci a tua face em alguma bruma de minha alma 
assim como esqueço que traje vesti em uma ocasião trivial.
Agora teu rosto é um caos como cacos de vidro espalhados no fim de festa. 
Borrões de tinta no lugar de seu semblante. Sombras no lugar das suas emoções.
Você está em mim como confetes achados num chão de setembro. 



quarta-feira, 2 de julho de 2014

terça-feira, 17 de junho de 2014

Tremores íntimos

O receio de ser como o mar revolto que cobiço é o estorvo que impede meus cabelos de embaraçar com o vento. 
O medo que arrefece minha espinha é o que tolhe meu usurpador grito de liberdade. 
O pavor de mirar a desilusão escorrendo pela tez familiar é que refreia minha esfinge libertina.

Contemplo a covardia que me assola com a inércia comum aos fracos.


Carrego no peito meu próprio perdão, tão comum aos conformados.


Na esperança de que os fios brancos venham amainar toda a sofreguidão vou serenando com o passeio dos ponteiros. Entre a paralisia e o assalto sigo inflamando insanidades profanas nas fogueiras clandestinas tão secretas quanto os gemidos dos pervertidos.




quarta-feira, 4 de junho de 2014

Ao amor meu que me salva da vida

Eu poderia queimar meus sonhos um por um.
Em vez disso eu deito em teu peito e choro. Choro manso às vezes, vez ou outra choro com soluço de desespero. Encho de lágrimas, todas as vezes, teu colo aberto e quente.
Eu também poderia rasgar meus desejos impossíveis.
Em vez disso eu divido com você as fraquezas minhas e as do mundo enquanto você permanece atenta às minhas chatices insistentes.
Eu poderia ainda afogar as minhas ideologias, uma por uma.
Em vez disso eu visito tua casa, deito em teu sofá, bagunço teu cabelo, teu chão, tua vida. E grito meu afeto em tua boca.
Eu poderia, embora queira nunca, vender meu tempo.
Em vez disso sossego o coração com as tuas palavras que me enchem de esperança. E danço com você sem ter música tocando. E admiro a tua gargalhada. E passo a apreciar algumas surpresas, as tuas. E começo a reparar nos postes da cidade. E erramos nas escolhas dos destinos. E beijo-te em frente ao portão. E sentimos frio, desliga o ventilador. E sentimos calor, liga o ventilador. E sinto vontade de você todo dia. E você sente calafrios. E sonho com você. E você sonha comigo. E cantamos músicas brasileiras em espanhol. E canto sem saber cantar. E danço sem saber dançar. E amo, muito.

Nos braços teus, amor meu, que sinto a vida sendo genuinamente boa.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Seu jeito vermelho que eu amo

Amor, você é vermelho.

E sangra:
um jeito à flor da pele que chora e grita,
um olhar doce com um sorriso discreto como quem quer descobrir por que te olho,
a linha no queixo que é das coisas mais lindas que tem nesse mundo,
um não-gostar de despedidas.

E sangra:
cicatrizes vorazes,
coragem receosa,
calafrios que te invadem,
um jeito bonito de pedir perdão.

Sangram:
Sua urgência. Seu 'é agora ou nada'. 
Seus temores. Seus ciúmes.
Lágrimas e lágrimas.
Gritos e gritos.
Prazeres e prazeres.
É paixão de tudo.

Amor, você é vermelho e sangra.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Da senda que percorri

Quantos cortes ainda vamos sangrar?
Agora que a lucidez é viva, te enxergo mais, mas não te salvo.
Meus ímpetos que te doem, minhas mãos que não te alcançam, minhas palavras que não falam.

A embriaguez não suporta o dia seguinte.

Deixamos a porta entreaberta ou a paixão escapa pelas fendas?
Ouço seu pranto bem perto das minhas lembranças.
Fincando os pés no agora, sou impulsos destrutivos e calor.

Quero matar a sede e não dou conta de beber.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Disparando

Desastradamente acaricio suas dores. 
E me reconheço em seu olhar triste que foge.

Tento, 

também fugidia,

desvendar o que aflige esse teu peito que se expande.

De repente possa ser um sorriso. 
De repente possa ser o que se dispara.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Os pés pelas mãos. Quando dou por mim já sou emoções incontroláveis Respiro. Excesso de condescendência. Me culpo e me perdoo. Queria que você pudesse ouvir meus gritos internos. Sinto uma espécie de febre de dentro pra fora. Eu rejeito as ideias de possibilidades que possam te ferir. Mas da febre ao sobressalto eu me perco. Tem uma melancolia em meus relatos. Sinto, muitas vezes, que não sei tanto de mim. Sei das miudezas, mas nada sei desses ataques súbitos.