sexta-feira, 29 de abril de 2016

Espinhos

Em que canto cabe esse meu implorar patético por mais amor?
Já não cabe mais na nossa casa que eu construí sem trancas nas portas.
Já não cabe mais no meu baú de palavras não ditas.
Cabe tampouco nas minhas insônias.
Aonde posso largar esse meu desamparo ridículo?
Não encaixa na nossa manta coberta de pecados inconfessáveis.
Não fica bem quando dita de longe nem quando dita de perto.
Não combina com as suas asas tão finas.
Onde eu posso enterrar essa parte torta do meu amar?
Parece não ter jeito de ficar no nosso quintal.
Também não tem espaço na harmonia da nossa partitura.
Nem mesmo fica dentro de mim.
E, por fim, em que pedacinho de nós cabe a minha feroz insegurança?
Nas minhas palpitações.
No meu medo bobo.
Na minha unha não feita.
No meu arrependimento.
Nas minhas poesias.
No meu pedido de desculpas.
Na minha ânsia de saber tudo.
No meu delírio.
Em mim.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Intimidade

Invade 
e corrompe meus tolos pensamentos,
te observo 
você está em frente a geladeira, 

seu cabelo está deliberadamente jogado sobre o ombro 
e descansando sobre seu peito direito, 

você pega a garrafa d'água 
e nós nunca precisamos de copo,

você mata a sede no gargalo

e devolve a garrafa à geladeira.
Me olha de longe,

nua, 

linda a sorrir 

e vem em minha direção. 

Eu, 

sentada no seu sofá preto, 

fico imensamente pequena 
diante da grandeza 
que tem essa nossa paixão.

Lua Cheia

Primeiro os pés lentamente pisam no terreno fértil.
Descalços, é claro, que não sou mulher de não-me-toques. 
Dá pra plantar, dá pra colher, dá pra matar a fome. 
Aos poucos cada parte da minha pele conhece cada parte desse terreno que é o meu par. 
Depois de muito rolar nessa terra macia, 
de muito apertar entre os meus dedos um bocado desse barro versátil. 
Só depois de amornar o solo é que me deito. 
E então me entrego mais e mais. 
Sou o oposto do fogo de palha, sou brasa mansa que de tanto soprar pega fogo intenso que arde. 
Não abranda, meu amor, que o tempo de ser brando eu já vivi.
Ferve comigo, aperta, espreme e suga. 
Que nessa dança só te peço pra não cansar de dançar.
Você foi furacão e eu ainda aproveitava as delícias do vento calmo bagunçando meu cabelo. 
Agora passou sua ventania, caminho natural do amor onde eu pego a direção contrária. 
Sem mistérios o encanto está no que já se sabe, no que já se é.
A intimidade do banheiro compartilhado, da cara limpa, do sexo sem pudor cria uma magia entre nossos olhares.
Se antes eu já te amava, agora é paixão violenta que pulsa sob minha carne. 
É desejo mesquinho que percorre as minhas veias. 
Ciúmes venenosos roubam meu sono presenteando as minhas noites com devaneios domcasmurrianos.
É como se você espremesse meu coração, ainda batendo forte, pulsante, vivo e eu lambesse desesperada o sangue que fosse escorrendo pelo seu braço pra evitar que manchasse sua roupa.
É unha rasgando a pele com prazer e dor.
Um querer devastador como a sede.
E é medo também como a imensidão do mar no escuro da noite.


Vem matar e morrer comigo, meu amor. 

Estou entregue, sou sua, uma completa apaixonada, cega, furiosamente cega.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Primavera

Devagarinho seu olhar percorre meu corpo em chamas
e todas as delícias que me diz ao pé do ouvido são feito mágica que me enfeitiça.
Cá estou, louca em arrepios. E tudo torna-se abstrato. Nada mais está.
Enlaço teu corpo eternamente entre meus braços e pernas, entre a manta e o colchão, entre o teto e o chão do quarto-sala. 
Ali, onde nossas roupas suadas descansam, descansa também todo o amor do mundo.
E aqui bem perto do fim do traçado do seu sorriso é o paraíso ou coisa parecida.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Carnaval e seu fim

Esqueci a tua face em alguma bruma de minha alma 
assim como esqueço que traje vesti em uma ocasião trivial.
Agora teu rosto é um caos como cacos de vidro espalhados no fim de festa. 
Borrões de tinta no lugar de seu semblante. Sombras no lugar das suas emoções.
Você está em mim como confetes achados num chão de setembro.