Sinto mais saudades nos domingos
em que não danço
ou que não durmo
em que me desocupo
o contrário da leveza
a ausência pesa mais que um corpo
e deita sobre mim
eu respiro, eu me viro, eu dou meu jeito
amanhã é segunda, eu vou me distrair.
Sinto mais saudades nos domingos
em que não danço
ou que não durmo
em que me desocupo
o contrário da leveza
a ausência pesa mais que um corpo
e deita sobre mim
eu respiro, eu me viro, eu dou meu jeito
amanhã é segunda, eu vou me distrair.
eu vou tirar do meu corpo todas as lembranças
e fazer uma grande fogueira que chamarei de adeus
para assim poder aproveitar plenamente o agora
sem resquícios de você
em outras peles que me enrosco e não são a sua
sem resquícios de você
em outras línguas que danço e não é a sua coreografia
sem resquícios de você
em outras águas que não as do seu leito.
aos poucos
não vai sobrar nada de você
Eu revisito você, ainda.
Eu preciso ouvir você dizer que acabou.
Novamente.
Ouvir repetidamente você dizer que acabou.
Até que acabe.
Eu preciso das palavras saindo da sua boca.
Eu preciso da sua boca
me dizendo adeus.
Até que o adeus chegue de vez e me faça um cafuné.
Não o seu.
Nunca mais
o seu cafuné.
Não basta saber que você ama outra,
não basta entender a partir das suas entrelinhas,
não basta não ter você aqui.
Eu preciso de toda essa voz que você me nega.
Eu preciso colocar uma escuta no teu coração.
Eu preciso que suas mãos peguem delicadamente o meu amor,
e que diante dele, suas lágrimas caiam, num banho de ternura
e você beije demoradamente cada parte
e se despeça com a certeza de ida.
Eu preciso da certeza de ida, eu vou buscar.
Aqui, nesse lugar repleto de ontem, eu me permito chorar esse adeus.
As palavras permanecem, apesar de tudo. Elas, que nunca me abandonam, me fazem lembrar de tudo que se foi e era tão bonito. De tudo que já foi eterno um dia. De tudo que parecia tão especial e se acabou ordinariamente.
Esse olhar que era tão meu. Esse carinho que era tão da minha pele. Essas declarações surpresas que invadiam os meus dias, tão minhas. Esse fazer de tudo pra me ver. Esse chegar na minha casa de madrugada. Esse estar na minha vida inteiramente. Essas piadas que eram tão pra mim.
E agora é tudo dela.
Por aqui, ainda leio suas palavras doces vindas da eternidade de tantos anos atrás.
Vai passar. Mas as palavras permanecerão. Eu tatuo a minha história no tempo, eu escrevo.