terça-feira, 19 de junho de 2012

Estreiteza


Vivia numa quase-vida, amava sempre um quase-amor.
Se cansava quase-sempre, planejava uma quase-fuga.
De noite ela quase chorava e esperava o quase pavor ir dormir.
Meio que sonhava, meio que partia.
Quase nunca a inteireza.
Quase nunca o desvelo.
Quase nunca o ardor.



domingo, 10 de junho de 2012

Ausência

Aquele sol fraco de fim de tarde poderia me completar, pensei. Vou me arriscar na noite.
O outono me permite o aconchego das cobertas e do açúcar, mas ainda há muita ausência ao meu redor.
É tudo melancolia - na grama verde molhada de chuva - por onde eu passei apressada naquela manhã.
Não saberia dizer se tinha alguma parte seca em mim, eu era só tempestade. As gotas eram fortes e doídas como boas lembranças que a gente acha melhor esquecer porque o futuro não foi bom.
Não foi pelo fato ou pela rejeição. Chovi pelo desamparo, pelo despertencimento, o descuido, as mãos desenlaçadas bruscamente. Acho que rapidez sempre me assustou muito. Lenta e gradual, sempre me fere o tempo.
De repente eu quase tropecei naquelas palavras, após minha quase queda, pedi sem brio:
- Não faz mais isso não, não quero cair... não agora.
Mas naquele dia, ignorei todos os indícios, calei minha intuição gritante, não reparei no visível ... fez-se a queda. Assustada, não me interessavam as circunstâncias, tremi por raiva, medo ou descrença, assim como uma criança que chora ao perceber que existe o olhar do outro, foi vergonha também. E desilusão. 



"É no espelho que eu vejo a minha mágoa
E minha dor e os meus olhos rasos d'água" Nelson Cavaquinho


domingo, 3 de junho de 2012

Andorinha

Você me dói como um amor não vivido, como uma carta rasgada que eu nunca enviei,
me dói como o nascer do sol, como o medo de mar.
Você me dói como um desejo negado, como um sonho irrealizável.
Você me dói e sabe, você me dói e fica, e cura, me dói e eu sorrio ainda.
Você me dói quando não vem e quando me visita.
Você me dói como fim de romance, como chocolate perdido.
Você me dói das palpitações aos espasmos.
Você me dói como esquecer.



sexta-feira, 25 de maio de 2012

Qual é o oposto do medo?

Descer do muro, pular a cerca, invadir.
Ausência da ilusão, pontualidade.
Um beijo clandestino na nuca. Causar arrepios fortuitos.
Concretude apraz. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Vai serenar

A menina sentou e ficou admirando o vermelho forte do corte do seu joelho.
Doía, mas ela negou todos os remédios.
Nunca foi de anestesias, queria sentir o que deveria ser experimentado.
"Assim demora mais pra cicatrizar e a marca fica."
Deu de ombros. Ela jamais escolhia a solução mais prática.
Talvez o segredo esteja nas cicatrizes, se orgulhava com ternura.
Sem pretensões de futuras coleções, só queria a experiência que lhe cabia.
Além de encar(n)ar a dor, não era lá de grandes ambições.


Longe é só um lugar onde a gente nunca vai. - Alice